Acordamos com uma missão: Angariar fundos para voltar ao Brasil. Chegamos cedo ao Palácio de Convenções, esticamos a bandeira do Brasil no piso do corredor e espalhamos sobre a bandeira alguns tickets com o nome e banner do nosso projeto. Estrutura montada, passamos toda a manhã contando nossa história aos interessados que paravam diante de nós.
Renan foi filmar a apresentação da Daniela (da Unila), enquanto eu fiquei tomando conta da bandeira. Nesse meio tempo, um dos integrantes da comissão venezuelana disse que o Embaixador da Venezuela em Cuba tinha tomado conhecimento do nosso caso e viria conversar conosco. Adiantando um pouco o assunto, a proposta seria nos mandar para Caracas, na Venezuela, e de lá tentarem “nos enviar” para o Brasil. Fiquei feliz com isso. Renan pegou a conversa no meio e também ficou empolgado.
Estávamos aguardando, já cogitando a idéia de ir para Caracas, contando os 18 CUC que tínhamos arrecadado até então, quando um homem se aproxima do local onde estávamos e pergunta a outra pessoa – Quem são os brasileiros das motos? Na hora interferi – Sou eu! O homem disse para recolhermos tudo e acompanhá-lo até seu gabinete. Seu tom de voz era amigável, o que me fez crer que se não era o Embaixador da Venezuela, era alguém ligado a ele. Gritei Renan que estava a poucos metros, juntamos tudo meio porcamente, embrulhado na bandeira e o seguimos.

Chegando no seu escritório, este homem, o Raul, apresentou sua equipe (cerca de 6 pessoas). Nos convidou a sentar, fechou sua sala e pediu para que contássemos toda a história. Enquanto falávamos e toda a equipe estava sentada ouvindo, Raul andava de um lado para o outro com a mão no queixo e dizendo sempre – Prossiga, prossiga. Quando terminamos, Raul começou a nos exaltar, disse que éramos com Che Guevara, que por sua vez é uma personalidade de extrema importância para Cuba, no entanto, depois do carinho veio o tapa. Disse que Che nunca pediu dinheiro, sobretudo, sob a utilização de uma bandeira – Aqui em Cuba, ninguém pede dinheiro, isso é proibido! Disse que assim, nós estávamos envergonhando nosso país, nossa universidade e o reitor de nossa universidade (o qual ele alegou conhecer). Nesse momento tivemos que intervir, afinal, nosso reitor não nos ajudou em nada. Enfim, pouco relutamos diante do sermão, que veio seguido de uma expressão acolhedora – Agora vocês são os meus filhos! Perguntou nossa idade e ao ouvir a resposta exclamou – Nossa, nunca pensei que teria dois filhos dessa idade agora.
Raul ligou na embaixada e marcou uma reunião com a gente para as 15h. Depois nos questionou onde estávamos instalados. Não queríamos contar, uma vez que nossa anfitriã não tinha autorização para hospedar estrangeiros, assim, ficamos com medo de prejudicá-la. Fomos convidados a almoçar no restaurante do Palácio de Convenções. No caminho, em meio aos corredores, encontramos com o professor Olavo, que nos deu os charutos para que nós vendêssemos. Nem tivemos tempo de agradecer como deveríamos, pois Raul e seus funcionários, nos arrastavam com pressa e também não queriam nos perder de vista.
Um táxi nos levou para a embaixada, fomos sob a tutela de Camilo, membro da equipe de Raul, mas antes passamos na casa de Letícia, precisávamos mostrar onde estávamos instalados. Não tinha ninguém, Camilo, todo engravatado, membro do governo, abordou os vizinhos a fim de perguntar o exato endereço dali. Todos ficavam com receio de responder, inclusive teve uma mulher que não conseguiu esboçar nenhuma palavra. Renan e eu ficamos enojados. Aquilo era respeito ou medo? Um pouco tensos, voltamos para o carro e seguimos sentido embaixada brasilera.
Chegamos e fomos atendidos pela vice-cônsul, a Angélica, que nos instruiu a preencher um formulário (um pedido de repatriação). Que diabo é isso? O que isso vai nos acarretar? Voltaríamos direto de Cuba? Não voltaríamos mais ao Panamá, não continuaríamos na saga de recuperar as motos? Eu perderia algumas roupas que deixei na casa de Ramsés, no Panamá? Ficaríamos fichados no governo? Renan ficou em dúvida, compreendi o porquê, mas não titubeei. De cara, estava perguntando – Onde é que eu assino? Não queria trocar o certo pelo incerto, se ali era uma possibilidade real de voltar ao Brasil, estava disposto a abraçar tal oportunidade.
Assinamos! Renan tinha deixado os documentos na casa de Letícia, então ficou acertado dele voltar na segunda para entregá-los. A embaixada ainda deu 100 CUC (o equivalente a 100 dólares) para cada um, a fim de custear nossa espera até a data da vôo. Que maravilha! Voltamos para casa, mas ainda estava fechada... seguimos para o Palácio de Convenções. Era o último dia do congresso, a noite se aproximava e com ela a festa de encerramento. Antes de entrar nos ônibus que levavam os congressistas para a festa, fomos ao trabalho de Letícia pegar a chave da casa para pegarmos nossas mochilas. Nos despedimos da família, apressados, mas com tempo suficiente para o derramamento de algumas lágrimas. Demos 40 CUC à família, 10 referente ao pagamento do último dia e 30 para ajudar no orçamento da casa. Era um dinheiro equivalente a um mês de salário.

Corremos para o Palácio de Convenções, o que nos permitiu pegar um dos últimos ônibus para o local da festa. O lugar era imenso, com um grande salão cheio de mesas repletas da comida e no espaço aberto uma grande piscina, bares que serviam cerveja e rum, no palco uma animada banda tocando salsa.
Estávamos relaxados, voltaríamos ao Brasil, o congresso havia terminado, a barriga estava cheia... e o copo também. Ficamos conversando com nossa amiga Daniela e mais duas professoras da rede pública de Minas Gerais, falamos muito sobre educação, apropriação do espaço público e extensão universitária.
Papo vai, papo vem, esquecemos de ligar na sede de OCLAE, a fim de garantir um local para ficarmos. Também não encontramos mais o Camilo, o que nos deixava de volta a estaca zero, onde iríamos dormir? Acompanhamos Daniela até seu hotel, demos uma de “João sem braço” e ficamos por lá mesmo. Com as almofadas dos sofás, improvisamos duas camas para nós. Adormecemos. Iniciava ali um tempo de espera... não tão monótono quanto pensávamos que seria.
Saudações libertárias,
Ary Neto